quinta-feira, 22 de novembro de 2018

Como Ciro pretende liderar a oposição a Bolsonaro?




Jair Bolsonaro representa um risco muito grave para a nação brasileira.

Jair Bolsonaro não é um risco para a democracia.

As duas frases acima foram ditas por Ciro Gomes.

Os contextos diferentes não parecem justificar o cavalo de pau entre uma declaração e outra.

Na primeira, o então candidato do PDT estava em campanha e o oponente acabava de ser esfaqueado.

Na outra, proferida há poucos dias, dirigia-se a investidores.

Ciro terminou a campanha em terceiro lugar, com 12,5% dos votos.
No segundo turno, anunciou um não-voto a Bolsonaro, e só.

Petistas esperam até hoje um apoio mais enfático a Fernando Haddad.
Encerrada a eleição, o ex-governador do Ceará reservou mais pauladas ao PT do que a Bolsonaro, outrora chamado de grave risco à nação.

Disse ter sido traído por Lula, responsável por frustrar uma aliança entre ele e o PSB, e atribuiu aos petistas um “projeto de poder miúdo” e de “ladroeira”.

A artilharia ocorre no momento em que tenta articular um movimento que seja, ao mesmo tempo, oposição a Bolsonaro e uma alternativa à frente de esquerda encabeçada pelo PT – um movimento que espera unir nomes do PSB, PSDB, PPS e DEM que não pretendam aderir automaticamente à base do novo governo.
Até aqui, porém, a resistência desses partidos a Bolsonaro é tímida.

O DEM, por exemplo, já emplacou três ministros na nova composição, entre eles o titular da Casa Civil.

No PSDB, o que não falta é gente se aninhando para o lado bolsonarista.

João Doria, tucano que pediu votos a Bolsonaro no segundo turno e se elegeu governador em São Paulo, é o maior símbolo deste movimento, para desespero de Fernando Henrique Cardoso, a quem o futuro presidente gostaria de fuzilar.
Atual presidente da legenda, Geraldo Alckmin deu apenas uma indicação do futuro até aqui: vai dar aulas na Uninove.

Haddad, por sua vez, tem passado os dias compartilhando notícias e análises críticas a Bolsonaro.

Em uma delas, rabiscou uma resenha das séries Black Mirror e The Handmaid’s Tale, distopias que, segundo ele, dialogam com as “bozoaflições contemporâneas”. Como escreveu um amigo, parece não ter entendido o recado das urnas e “continua falando pro Não Existe Amor em São Paulo”.

Entre todos os oponentes de Bolsonaro na disputa, Ciro é quem menos levou tempo para enrolar os dardos. Falta entender a estratégia – que, até aqui, não encarna a verborragia da campanha. Pelo contrário.

Quem observa com atenção as cenas dos últimos capítulos aposta que Ciro está de olho nos eleitores descontentes do ex-capitão que prometia, de saída, um ministério sem nomeações partidárias e aliados sem imbróglios judiciais – algo que encontra dificuldade para cumprir, como se vê pela escolha do futuro ministro da Saúde investigado por Caixa 2 e fraude em licitação.

Quem acreditou na conversa “contra tudo o que está aí” pode se transformar em um potencial explosivo de decepção.

Para ganhar esse terreno, Ciro tenta adaptar o discurso ao sentimento antipetista sem chutar quem optou por um defensor da ditadura.
Os próximos capítulos prometem.