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| Foto Kid Jr. |
Ninguém
sai triste do consultório de Ana Eduvirges Carneiro de Oliveira.
Ninguém fica sem consolo e abraço. Ela faz praticamente o impossível:
num cenário de dor e angústia, reverte o panorama para que o afeto
impere sempre. Ana é oncologista pediátrica em hospitais de Fortaleza e
do Brasil, com foco em cuidados paliativos. Em outras palavras, lida com
crianças em tratamento contra o câncer e tudo o que esse universo
engloba.
Não
é pouca coisa. Do conhecimento do diagnóstico às formas de lidar com a
doença, cada detalhe tem peso, suplício, aflição. Não parece justo
alguém tão pequeno, tão recente nessa vida, saber que possui algo grave
em si. Quando pais e mães chegam até a doutora pela primeira vez, é esse
o pensamento: por que passar por algo tão difícil logo ali, em pouca
idade? Existe algum modo de lidar com a situação de jeito menos
doloroso?
“Quando
o filho de alguém está morrendo com falta de ar, dor ou algo assim, não
adianta chegar para os pais e dizer que vai dar tudo certo. Não é isso.
Preciso saber manejar o caso, saber o que fazer para aliviar o
sofrimento. São muitos: do corpo, da família, espiritual, da partida de
quem você ama, de quem está partindo e tem medo de como vai ficar quem
ama...”, enumera a profissional, voz embargada ao lembrar de cada
paciente.
“Acho
que a gente impacta diariamente trazendo o nosso melhor. E o nosso
melhor não é só tecnicamente – não é só oferecer o melhor tratamento,
por exemplo. Vai muito além disso. Tem a ver com a parte humana, o
sorriso, a preocupação, o cuidado, o abraço”. Prova maior está em como
acontece o contato entre médica e paciente. Ana é surpreendida
diariamente por quem é muito grato pelo trabalho dela. Fazem questão de
dizer que gostam, que amam.
Num
dia um pequeno leva tapioca. No outro, um bombom. No outro um desenho,
um biscoito, até presilha. Os cabelinhos deles caem, corpos precisam se
ajustar para lidar com intervenções tão fortes; mas há também vontade
real de cuidar de quem, de fato, faz questão de zelar para que o coração
de cada um sossegue, encontre algum tipo de alento.
Foi
assim que, lá atrás, talvez já mirando nessas possibilidades de vida, a
ainda menina Ana Eduvirges despertou para a Medicina. Tinha sete anos
quando escolheu a vocação. “Sempre fui uma criança muito madura, muito
precoce. E lembro exatamente do dia em que estava conversando com minha
mãe sobre isso”, conta. Mais à frente, aos 11, adicionou mais um
tijolinho ao futuro após assistir ao filme “Patch Adams - O Amor é
contagioso”.
No
longa, estrelado por Robin Williams, um médico descobre que humor e
carinho podem ajudar a curar pessoas hospitalizadas. Essa tese entra em
conflito, porém, com os defensores da medicina tradicional no local onde
ele trabalha. Ana se viu na mesma posição do personagem anos depois de
conferir, encantada, à produção: precisou estudar e bater o pé muitas
vezes para fazer com que ninguém fosse lembrado apenas pela doença que
possui.
“O
cuidado paliativo é muito isso: quando se fala em fim de vida é, na
verdade, criar dias de vida. Oportunizar momentos, criar lembranças,
realizar sonhos, fazer diferença. Não é só focar na dor. Nesses
tratamentos, você foca tecnicamente no câncer porque precisa tratá-lo;
mas é preciso focar humanamente no todo porque não se está só tratando
um tumor. Não é só um protocolo: é uma criança, filha de alguém, dona de
um cachorro, que gosta de fazer coisas... É nesse contato que você
escuta histórias e passa até a fazer parte da família”.
Esse
movimento acontece sempre. Mães de pacientes por vezes se tornam amigas
pessoais da médica – mesmo quando os filhos não resistem e partem para o
infinito. Crianças participam da vida dela a ponto de serem convidadas
para a própria cerimônia de casamento.
É
troca viva, de um bem-querer recíproco, não só porque a vida pode estar
por um fio, mas porque todo tempo é tempo de celebrar o que faz bem. E,
a depender de Ana, assim continuará.
Na
luta diária dela, quer fortalecer, no Sistema Único de Saúde (SUS), a
neuro-oncologia – especialidade a qual se dedica, voltada ao diagnóstico
e tratamento de tumores benignos ou malignos no sistema nervoso central
e periférico. Para se ter ideia, no Centro Pediátrico do Câncer, em
Fortaleza, ela já integra equipe com profissionais médicos necessários
na área, a exemplo de radiologista, radioterapeuta e neurocirurgião.
“Pensando
demograficamente – que o meu paciente que trata sistema nervoso central
em Fortaleza tem acesso às mesmas coisas de um paciente que está em São
Paulo, referência em todo o Brasil – isso me deixa muito feliz”,
comemora.
