Trinta dias. Um mês inteiro sem futebol no Ceará.
Ferroviário e Pacajus, no dia 15 de março, um domingo, foi o derradeiro
confronto do Campeonato Cearense antes de sua paralisação devido à
pandemia do novo coronavírus.
No resultado de 1 a 0 para o time coral sobre o Pacajus, porém, já não tinha torcedor nenhum para comemorar no Estádio Presidente Vargas. A mesma grama que testemunhou a alegria das redes balançadas seria, semanas depois, pilar para uma causa ainda mais nobre: salvar vidas.
Símbolo do futebol cearense, o PV se adapta para receber pacientes
positivos para a Covid-19. Uma batalha sem rodadas, clássicos,
rebaixamentos ou premiações. Mas o objetivo permanece o mesmo que o do
futebol: vencer o adversário. Um título que ainda deve demorar a ser
conquistado no Brasil.
O impacto da grande pausa forçada é sentido principalmente nos cofres
dos clubes. Para amenizar o prejuízo financeiro, Ceará e Fortaleza
deram férias de 20 dias aos seus atletas em abril, além de uma redução
salarial de 25% acordada entre os elencos.
O mês seria o mais lucrativo de 2020 até agora para alvinegros e
tricolores, por exemplo, com o Cearense e a Copa do Nordeste em fase
final. A expectativa de estádios lotados e alto faturamento vieram
abaixo com as recomendações de isolamento social.
“O impacto é certo, a gente vai perder receita. Isso não tem como. A
gente tá deixando de faturar uns três milhões de reais”, lamenta o
presidente tricolor, Marcelo Paz.
Com o avanço da pandemia no Brasil, em nova reunião, ontem, os clubes
da Série A resolveram dar mais 10 dias de férias aos seus elencos,
ficando sem atividade certa até o início do mês de maio. Isso dará mais
tempo para que as equipes consigam desenvolver os estudos para o
protocolo de uma possível volta do futebol no próximo mês.
O Guarany de Sobral, porém, não vive cenário semelhante. O clube
dispensou os atletas por força do patrocinador pois, sem jogos, não há
perspectiva de lucro. A solução de quem injeta o dinheiro na equipe não
demorou a vir: desligar a fonte. Sem outras maneiras de garantir sua
renda mensal, o Cacique do Vale se vê contra as cordas neste que seria
seu momento de maior destaque no estadual. Com um pé nas semifinais, a
chance de surpreender novamente, como na 1ª fase, era a esperança do
time.
Estaduais prioritários
Uma certeza, pelo menos, já se tem para a temporada: os Estaduais
serão concluídos. No começo da pandemia, a CBF se reuniu com os
presidentes das federações de cada estado para alinhar medidas.
“Na reunião estavam presentes os presidentes das federações com o presidente da CBF, Rogério Caboclo, e sua diretoria. Ficou determinado que terminaríamos o Campeonato Estadual”, garantiu Mauro Carmélio, presidente da Federação Cearense de Futebol (FCF).
A dúvida reside justamente em quando o restante dos confrontos vão
ocorrer. E quando voltarem, a tendência é que não seja com a presença
das torcidas.
“Seria mais do que irresponsável obrigar as competições a retomarem,
se a situação não for 100% segura. Se tivermos que esperar um pouco
mais, precisamos. É melhor esperar do que correr riscos”, destacou
Gianni Infantino, presidente da Fifa.
Jogos sem torcida
O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, comentou em entrevista
ao Fantástico, no último domingo (12) que “maio e junho serão os meses
mais duros para nossas cidades”. São mais de 25 mil casos confirmados da
Covid-19 no País, além de mais de 1.500 mortes.
Ou seja, futebol com a vibração de milhares nas arquibancadas só deve voltar no 2º semestre de 2020.
Marcelo Paz imagina que o já intenso calendário do futebol brasileiro
pode ficar ainda mais inchado após a retomada. “Não sabemos como vai
ficar o calendário. O que acho mais provável é que encaixem os estaduais
e a Copa do Nordeste durante o Brasileirão”, opinou o presidente do
Leão.
Para a Federação Nacional dos Atletas de Futebol (Fenapaf), a
situação excepcional é motivo até para encurtar o intervalo de horários
entre jogos. A proposta enviada à CBF, na última sexta-feira (10), pela
Fenapaf, era de que o período entre uma partida e outra fosse reduzido
de 66 horas para 48 horas. Uma medida arriscada por exigir ainda mais do
físico dos jogadores, mas que deve ser analisada. No Estado, o
presidente da FCF, Mauro Carmélio, disse que a entidade seguirá a
determinação da CBF, que colocou a proposta em estudo.
Redes sociais
A falta de movimentação no futebol exigiu dos clubes novas formas de
interação com seus torcedores. Uma alternativa encontrada por Ceará,
Fortaleza e Ferroviário, com apoio da FCF, foi no e-Sports, com a 1ª
Copa Cearense de Futebol Digital Pro Clubs que matou, mesmo que
brevemente, as saudades dos torcedores de ver seus times em campo,
embora no videogame.
Com quatro vitórias em quatro jogos, com direito a goleadas sobre o
rival tricolor na final, o Alvinegro de Porangabuçu se sagrou campeão,
na última quinta-feira (9).
O sucesso da competição foi tanto que a Federação já deseja organizar
o Campeonato Cearense da modalidade. Uma centelha de felicidade para a
torcida que sofre sem a chance de apoiar sua equipe nos estádios.
Os tempos são de união. Não física, mas de consciência. O manto do
rival, dessa vez, não tem cores. Mais do que nunca, o já famoso “todo
jogo é uma final” se encaixa na luta diária contra o coronavírus e pelo
futebol.