A
primeira vítima fatal da Covid-19 no Brasil entrou no carro com o irmão
na noite do sábado 14 para ir ao hospital, a pouco mais de 500 metros
de casa, porque não se sentia bem. Queixava-se de tosse, dores no corpo e
dos efeitos do inchaço nas pernas decorrente de uma trombose que o
acompanhava havia pelo menos dois anos.
Problemas de vista, decorrentes de uma diabetes, já tinham afastado o
porteiro aposentado de 62 anos do trabalho em um prédio residencial no
bairro da Bela Vista, na região central de São Paulo, havia pelo menos
um ano e meio. Ele também tinha hipertensão e hiperplasia prostática —
aumento benigno da próstata, que causa infecção urinária. Homem de
origem humilde, vivia com os pais — idosos de 82 e 83 anos — duas irmãs e
um irmão, com idades próximas à dele.
“A coisa mais triste do
mundo é perder um filho, não poder ir ao enterro, não poder fazer nada. É
muito difícil, difícil, difícil. Até a gente não aguentar mais”,
desabafou a mãe, ao telefone, horas antes de ser internada.
Ela
ainda se queixava de dores no corpo e boca seca. “No dia em que meu
filho saiu daqui para ir ao pronto-socorro, falei com ele que pegasse na
mão de Deus e fosse. Diante de Deus, (a gente) é nada.”
O
filho buscou atendimento em uma unidade da Prevent Senior — plano de
saúde privado com atendimento em unidades próprias e especializado no
atendimento a idosos, a preços mais baixos que os oferecidos pelos
planos médios. Três quartos de seus quase 500 mil clientes têm mais de
61 anos.
Logo na chegada ao hospital, relatou quatro dias de
desconforto respiratório. Na madrugada do domingo, foi internado na UTI e
entubado. A família foi avisada sobre a gravidade de seu estado de
saúde durante o dia. Sua morte foi atestada às 11h25 da segunda-feira
16, marcando-o como o primeiro registro oficial de morte decorrente do
novo coronavírus no Brasil.
Ao receber do hospital uma declaração de óbito para fins funerários,
uma irmã que mora na mesma rua da vítima esperava encontrar como causa
da morte as várias doenças que acometiam o irmão havia anos. Mas tomou
um susto quando leu o texto: “Síndrome do desconforto
respiratório/pneumonia — provável Covid-19”. “Saí para providenciar o
enterro de meu irmão, mas antes perguntei o que era aquilo. O
infectologista ficou de me ligar para dizer se havia confirmação. Mas
não me ligaram nem falaram nada”, contou a mulher, de 53 anos, que
trabalha como auxiliar veterinária.
Pela televisão, viu ser anunciada a morte de uma pessoa com as
características de seu irmão como a primeira vítima da doença. Sem
informações, considerou a postura do hospital “uma falta de respeito,
comigo e com toda a família”. Tomando como base notícias de jornal,
decidiu que seus pais não iriam ao enterro do filho, por causa do risco
de também estarem infectados, já que moravam na mesma residência.
Motivos
para preocupação não faltavam. Cinco dos seis moradores da casa — além
dos pais, outros dois irmãos — apresentavam os sintomas da doença, como
dores pelo corpo, tosse ou febre. No dia anterior à morte do filho, o
pai, de 83 anos, havia procurado a mesma unidade da Prevent Senior por
sentir dificuldades para respirar. Relatara que um de seus filhos estava
internado no mesmo hospital. E pedira para fazer o teste do novo
coronavírus. Mas foi ignorado, segundo a filha. “Falaram que não tinha
mais. E que só era possível fazer em outra rede particular, pagando R$
250. Você acha que a gente ia pagar, não é?”, desabafou a filha.
Na terça-feira 17, dia seguinte à morte, o irmão mais novo da vítima
contou em entrevista a O GLOBO que, passadas mais de 24 horas do
primeiro registro fatal da doença no Brasil, nenhum dos moradores da
casa havia sido contatado ou submetido a testes para detecção do vírus.
Inclusive ele, que, por não ser beneficiário do Prevent Senior, buscara
atendimento em unidades de atendimento do SUS, sem sucesso.
No
pronto-socorro do Hospital do Servidor Público, da rede municipal, na
Zona Sul de São Paulo, ele pediu para fazer um exame do novo
coronavírus, mas disseram que não tinha. “Dá uma suadeira. Você sua,
sua, parece que está morrendo, mas depois passa. Depois vem uma fraqueza
danada. A gente está tomando vitamina”, contou.
No dia seguinte à
publicação da reportagem, uma ambulância do Samu foi acionada para
buscá-lo em casa. Segundo familiares, na quarta-feira 18 ele foi
internado no Hospital das Clínicas, em São Paulo.
No mesmo dia, a
irmã que mora na mesma rua e não apresenta sintomas foi à sede da
Prevent Senior para exigir que internassem seus pais, que apresentavam
sintomas da doença e nem sequer haviam sido testados. “Falei que ia
chamar imprensa, polícia, advogado. ‘Vocês precisam buscar meu pai e
minha mãe porque eles estão ruins, vocês nunca deram uma assistência,
não estão fazendo nada.’ Na televisão deu que eles estão monitorando e
dando assistência, não é? Tudo mentira, fiquei sabendo do corona depois
que enterrei meu irmão”, disse.
A pressão surtiu efeito. Uma ambulância da Prevent Senior buscou os
dois idosos de mais de 80 anos em casa. Eles estão internados na mesma
unidade em que faleceu o filho. Outra irmã, que também morava na casa,
foi atendida pelo Samu e internada no Hospital do Servidor Público
Municipal.