sexta-feira, 8 de maio de 2026

'Tirar bola de sangue': pastor é preso em Fortaleza por crimes sexuais sob pretexto de cura espiritual

viatura policial civil farda

Legenda: A PCCE disse que a investigação aconteceu com apoio da própria igreja.
Foto: Divulgação/PCCE.

Um líder religioso de 37 anos foi preso no bairro Antônio Bezerra, em Fortaleza, na noite dessa quinta-feira (7). A reportagem do Diário do Nordeste apurou que o homem é um pastor que se valia da confiança das mulheres fiéis que frequentavam a igreja para violentá-las sexualmente.

Alan Pereira Vicente foi autuado por crime sexual mediante fraude. A Polícia Civil do Ceará (PCCE) passou a investigar o suspeito depois que um grupo de mulheres denunciou as violações sexuais. 

Há informações de que, até essa quinta-feira, pelo menos três mulheres denunciaram Alan. Uma das vítimas contou que o líder religioso costumava apresentar sempre a mesma versão: "que elas tinham câncer e era preciso tirar uma bola de sangue que havia no útero".

"Ele aparecia nas casas das fiéis com esse pretexto de 'cura', passava olho ungido nas mãos e introduzia nelas", conforme apurou a reportagem. A defesa do suspeito não foi localizada pelo Diário do Nordeste. 

A advogada Elaine Araújo representa uma das vítimas e diz que "as autoridades competentes adotaram as medidas cabíveis no curso da investigação, que tramita sob sigilo judicial. Em respeito à preservação da apuração, da intimidade das vítimas e ao devido processo legal, não serão divulgados detalhes do procedimento neste momento".

"Segundo as investigações policiais, o suspeito se aproximava das vítimas - comumente do sexo feminino e que possuíam idades entre 20 e  27 anos -, afirmando que elas estavam doentes e teriam de passar por uma 'limpeza espiritual' para a retirada de agulhas e alfinetes que estariam dentro de seus corpos. Outros levantamentos revelam, ainda, que o homem utilizava-se de uma suposta influência sobre um grupo criminoso de origem carioca para coagir as vítimas", segundo a Polícia.

'RITUAL' 

Uma das vítimas chegou a relatar que o pastor a convenceu de ir ao motel alegando que precisava 'fazer um ritual nela'. Durante o 'ritual' no motel, lençóis ficaram sujos de sangue e o homem foi cobrado pela instituição a pagar pelos panos. 

A vítima contou que procurou o pastor porque vinha tendo complicações depois de um parto. O homem teria dito à mulher que "ela tinha algo espiritual e que precisava colocar a mão dentro da parte íntima dela para retirar essa bola".

A mulher teria questionado se isso era necessário e o pastor dito que sim, citando um trecho da Bíblia e que "já tinha sugerido isso para outra irmã na igreja, mas que essa irmã não permitiu e que ela veio a falecer dessa suposta doença".

A vítima disse ter medo de morrer também e que, por isso, 'permitiu' o que ela acreditou naquele momento ser uma intervenção em prol da saúde.  

Quando o suspeito tomou conhecimento de que as mulheres tinham denunciado os crimes às autoridades, ele ainda supostamente as ameaçou, dizendo que se não retirassem as queixas, "ia falar com a facção" que predomina na região. 

As mulheres solicitaram medidas protetivas para garantir que o suspeito mantivesse o distanciamento.

A advogada acrescenta a importância de que possíveis novas vítimas "procurem os canais oficiais de denúncia e confiem nas instituições responsáveis pela investigação dos fatos".

PRISÃO

Conforme a Polícia, "com apoio do Núcleo Operacional (NO) do Departamento de Polícia da Capital (DPC), o alvo foi capturado mediante o cumprimento de um mandado de prisão preventiva, no bairro Antônio Bezerra, na Área Integrada de Segurança Pública 18 (AIS 18) de Fortaleza".

"Em posse das informações, os agentes policiais diligenciaram ao endereço do alvo, onde cumpriram o que determinava a ordem judicial. Após a prisão, ele foi conduzido à Delegacia de Capturas (Decap) para os procedimentos legais cabíveis, onde permanece à disposição do Poder Judiciário. A PCCE ressalta que as investigações seguem em andamento, averiguando, inclusive, a possível prática de coação das vítimas por outros membros da igreja", disse a Polícia.